6 -

 

 

 

À COMISSÃO INSTALADORA da

ASSOCIAÇÃO AMIGOS DE  MOÇÂMEDES

 

Com especial atenção

ao Senhor Hugo Seia

 

AMIGOS

 

É COM GRANDE SATISFAÇÃO QUE A “A.I.A.A.” – Associação Internacional Amigos de Angola regista o interesse da vossa Comissão para a constituição da Associação Amigos do Moçâmedes (Angola).

A propósito, e de acordo com o escritor angolano João da Chela, transcreve-mos deste o seguinte, com a devida vénia.

“... na ânsia da colonização (e povoamento) do Sul, terras boas de que houve fama no final das lutas em reinos do norte, botaram até à Angra do Negro os primeiros navios de comércio. Lá ficou na rocha da TORRE DO TOMBO esse sinal da história. E logo por volta de 1875, o barão de Moçâmedes, Capitão - General de Angola, mandava às terras do silêncio e do sonho a sua gente estabelecer feitorias ...”

“... A designação de ‘FEITORIAS’ tinha a marca e o fito de exploração negra e do tráfego afeito à escravatura.”

“... Anos, muitos anos depois da descoberta da famosa “SINTRA” (Moçâmedes), que nem sequer tinha semelhança com as fragas e com o feitio do Castelo da pena, é que a corveta “ISABEL MARIA” e o tenente João Garcia plantaram na Angra pé de civilização e humanidade, de onde havia de nascer e crescer a cristã cidade do Sul.”

“A Fortaleza, que lá está, solene e histórica para o tempo e para o mundo, é, de facto, uma montanha de oiro erguida com honrado suor. Não há ali a letra nem a marca infame do sangue dos escravos ...”

“... Ao Sol do magnífico poente da baía, só enfeitada de gaivotas ao lume das ondas, que poetizavam o mar, o comandante do fundado estabelecimento reunia os seus oficiais e os chefes indígenas de MUSSUNGO e redondezas, e mesmo o do JAU, de CHELA arriba.

A esses sobas fez o Conselho saber que a BAÍA DE ANGRA, já chamada MOÇÂMEDES pelo Capitão – General, que assim homenageara a sua terra de nascença no terreno da lusitana cidade de Viseu, levantava uma Fortaleza para protecção das terras que iam ser povoadas.

“O povoamento e o comércio teriam, com a função governativa, a amizade do reino de Portugal, e a defesa da Feitoria.”

“Do Acordo havido, um acto de honra e de solene compromisso que ficara no Arquivo do Tombo a deixar a história da jóia portuguesa do Sul, ficou em Acta de imperecível letra que constituiu quase um estatuto. A esse documento, simbiose de duas raças que entravam no anel de uma civilização, manteve intacto o respeito mútuo, com observância que, sem dúvida, poderia servir de lição aos homens do mundo, que um século mais tarde tão desatinados teriam de sentir-se em acordos de paz!”

“Vimo-lo publicado no “JORNAL  DE  MOÇÂMEDES” de 8 de Março de 1882, que esclarece, e por ele dá conta, da fundação da terra em 1840 ...”

Mais adiante, João da Chela, diz:

...”Moçâmedes, só quase sessenta anos após a sua fundação, foi elevada a cidade. Brasão de Armas e, depois, tal categoria o rei D. Carlos lhe concedera, em Setembro de 1907, quando foi visitada pelo príncipe real D. Luís Filipe, e passando, então, de princesa a rainha, a sua formosura e esplendor acentuaram-se mais, embelezando o deserto e a tristeza das areias em que nascera. O cais acostável, finalmente iniciado, e o rompimento do seu Caminho de Ferro, para Leste, são dois passos de gigante da nossa época que o galope do tempo não tivera nos cem anos passados.”

“Das riquezas de Moçâmedes – caça, pesca e, sobretudo, as industrias que desta derivam – há copiosos relatórios e larga crónica que forneceram arquivos e documentaram a história. De hoje a cem anos, quando arranha-céus ou prédios monumentais, de novas épocas de cimento e ferro, forem a beleza e o assombro de quem então vier, a imprensa e a literatura darão conta da saudade de tudo quanto foi o encanto da cidade na primeira metade deste século ...”

 

AMIGOS  MOÇAMEDENSES:

A “A.I.A.A.” regista este acontecimento resultante da Constituição de Associação AMIGOS DE MOÇÂMEDES, organização da responsabilidade de brancos, negros e mestiços, gente de bem !, na DIÁSPORA, como um facto que dignifica e honra todos os Moçamedenses de ontem, de hoje e de sempre !

 

Lisboa, 08 de Outubro de 2002

 

De V. Exa.

Atenciosamente

 

Carlos Caldeira de Victória-Pereira

- Presidente -

 

Manuel Maria Caldeira de Potes Cordovil

- Vice Presidente –

 

 

Moçâmedes

 

Moçâmedes!,  meu berço,

minha terra e terra

de peixes encarnados,

disse assim meu Pai

na MUSA FERIDA,

poesia que lá se vai,

em S. Tomé perdida,

entre uma “guerra” e outra “guerra” ...

 

Terra do Namibe,

lá onde a chuva não cai

nas areias escaldantes

e no mar, que encerra

em si próprio o Céu azulado,

e que vem e vai

na sua praia, onde correm

caranguejos de terra.

 

T erra do atum e do pungo

e de imensas pescas,

onde o mar em brasa

é espelho do Sol radiante,

que amorena mais

corpos fêmeas de donzelas

de Riquitas Baulete,

lembrando as gazelas

do deserto do Calahári,

de porte elegante,

quando rompe o dia

nas manhãs e tardes frescas.

 

Tapada das Mercês, 06 de Outubro de 2002

 

Carlos Caldeira de Victória-Pereira

 

 

*Retroceder