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À  COMISSÃO  INSTALADORA da

ASSOCIAÇÃO  AMIGOS  (BRASILEIROS) DE  ANGOLA

 

Com especial atenção

à Senhora Dª. Sílvia Lemos Bastos

 

AMIGOS

 

É com grande satisfação que a “A.I.A.A.” – Associação Internacional Amigos de Angola regista o interesse da vossa Comissão para a constituição da Associação dos Amigos (Brasileiros) de Angola pondo-se à disposição para o que for necessário para o efeito.

 

A propósito do que resulta dum ABRAÇO DE IRMÃOS entre brasileiros e angolanos e outros africanos, apresentamos o seguinte:

D. Francisco Félix de Sousa partiu em 1812 de S. Salvador da Baía e chegou à costa africana ocidental, onde estabeleceu a sua base no Forte português de AJUDÁ, que nessa época era a principal fonte de MÃO-DE-OBRA de minas e plantações no Brasil.

Segundo Bruce Charwin, jornalista que foi do Sunday Times de 1972 a 1975, transcrevemos, com a devida vénia, o seguinte:

... “(ali chegado), por qualquer motivo, desentendeu-se com o Rei Daomé (Ajudá) ADANDOZAN, que o levou como prisioneiro para o Abomey e o mandou mergulhar num tanque de índigo para lhe tingir a pele de negro (o branco, no Daomé, é a cor da morte e dos imortais: matar um branco era tabu ... e impossível)”.

“Francisco de Sousa foi tirado da prisão pelo jovem que viria a ser o Rei GESO. Depois da fuga, passado algum tempo, os dois homens encontraram-se na floresta e fizeram um PACTO DE SANGUE, de acordo mútuo, em que ficariam irmãos, um Rei e outro Vice-Rei de AJUDÁ e também XÁ-XÁ (governador de brancos).”

“Francisco fornecia as espingardas (vindas do Brasil) para um golpe de Estado e, em contrapartida, recebia o MONOPÓLIO de venda de escravos. Na década de 1830 era o homem mais rico da África Ocidental e a besta fera dos abolicionistas ingleses.”

Quando D. Francisco chegou a S. Salvador, encontrou ali o seu patrono, o coronel Coutinho  e filho (seus amigos e familiares).

Bruce Charwin dá conta disso e conta:

...”Vagueou pela cidade de Todos os Santos, vestido com uma casaca de belbutina preta, que viu num manequim de alfaiate e que comprou.

Roupa a secar roçava-lhe pela cara. Moleques beijavam-lhe nos lábios enquanto os dedos se lhe introduziam nos bolsos. Os pés escorregavam-lhe em cascos de fruta podre e nuvens brancas e tugidas passavam por cima dos campanários.”

“Passeou pelo empedrado do PELOURINHO para ver os rapazes da rua a praticar a capoeira.

O «CÃO LINDO DO NORTE» era um cão d’água pintado de azul que jogava cartas; e depois do escurecer havia sempre uma desculpa para lançar fogo-de-artíficio.”

“O seu principal divertimento era acompanhar enterros. Num dia era uma carreta com caveiras douradas encrostadas. No dia seguinte, o caixão azul celeste dum recém-nascido ou um cadáver cinzento amortalhado em folhas de bananeira.”

“Alugou uma casa pobre no centro da cidade e arranjou emprego num homem que vendia utensílios para a escravatura – chicotes, manguais, cangas, correntes para o pescoço, ferros de marcar e máscara de metal: a loja lembrava-lhe as lojas de ferragens do interior.”

“Os seus olhos verdes tornavam-no famosos no bairro. Sempre que lançava um dos seus olhares numa rua cheia de gente, era certo alguém parar ...”

...”A configuração do seu rosto fixou-se numa forma definitiva.”

“A sobrancelha direita, mais alçada do que a esquerda, dava-lhe o ar dum homem admirado por dar consigo numa casa de loucos. Um bigode enrolava-se-lhe à volta da boca que era húmida e sensual. Durante anos repuxava os lábios para trás, em parte para ser viril, em parte para não estalarem com o calor: agora deixava-os pender, como que para mostrar que tudo era permitido. Os ataques de fúria tinham-no abandonado, mas não o remorso. Queria ir para ÁFRICA, mas não tomava uma decisão consciente.”

“Sempre que um navio da Guiné ancorava ao largo do FORTE DE SÃO MARCELO, deambulava pelos cais de escravos e ficava a ver os pretos serem trazidos para terra. Traficantes de todas as províncias lançavam-se para a frente à cotovelada, com gritos roucos, ao identificarem os ferros dos consignatários. Calculavam o número de mortos; depois obrigavam os sobreviventes a correr, a bater com os pés no chão, a erguer pesos e a berrar para mostrar a saúde dos pulmões.”

“Os que tinham defeito eram vendidos barato aos ciganos.”

“Francisco de Sousa tornou-se amigo dum desses ciganos negociantes de escravos, que lhe ensinou alguns truques do negócio: como esconder uma desinteria sangrenta com batoque de estopa, ou uma doença de pele besuntando-a com óleo de castor.”

“Mas quando falava com antigos africanistas, todos se arrepiavam à menção do Daomé.”

E prossegue o escritor:

...”Uma tarde, em Dezembro, à falta de melhor, ajudou uns tantos rufiões pagos para enforcar um homem de palha com a esfinge do cônsul britânico: fazia quatro anos que o Parlamento aprovara a LEI DA ABOLIÇÃO DA ESCRAVATURA, mas havia só poucos meses que a Royal Navy tinha começado a interceptar navios negreiros brasileiros.”

“As multidões tornaram-se furiosas e, quando um pelotão da milícia as dispersou, caíram sobre um marinheiro escocês e lançaram-no ao mar ...”

...”Quinze dias depois estava a beber uma limonada no exterior dum leilão de escravos, na Rua dos MATOZINHOS, quando uma das peças do lote, um criado doméstico de BENGUELA (Angola) fugiu a meio da licitação ...”

...”Os escravos mais valiosos vinham de AJUDÁ e Ajudá, nos termos do tratado do Príncipe Regente com a Inglaterra, era o único porto a norte do Equador, onde eram legais as transações: o único problema era o Rei de Daomé, que era louco.”

... “Três semanas  depois (influenciado também por Joaquim Coutinho), Francisco Félix de Sousa, encontrava-se numa sala da Capitania, com os pais fundadores da cidade as vigiar, pendurados em painéis escuros de madeira e os sócios de Joaquim Coutinho sentados à volta duma mesa.”

“Um homem de charlateiras douradas e faixa vermelha pôs-se em pé, fez girar um globo terrestre, apontou para o FORTE DE SÃO JOÃO BAPTISTA DE AJUDÁ e promoveu Francisco Félix de Sousa a candidato à patente de TENENTE.”

“A comissão não previa salário, mas incluía duas fardas grátis, uma passagem para África e licença para comerciar escravos. Nenhum dos oficiais sabia o que acontecera ao Governador do Forte ou à sua guarnição. No fim da sessão ergueram-se todos para felicitar o homem que sabiam que ia morrer.”

“Na última noite em terra, com o brique negreiro PISTOLA, pronto a largar, Francisco foi à missa de despedida no HOSPÍCIO DA BOA VIAGEM.”

...”O padre proferiu uma curta oração ao patrono dos negreiros, S. José, o Redimido, e outra mais longa pelas almas dos irmãos negros que iriam ser resgatados para o redil cristão ...”

...”Do seu lugar, ao fundo, Francisco viu o Padre exibir o cibório e, humildemente, a tripulação avançou numa fila para o Altar: Corpus Domini Nostrum Jesum Christum ... Corpus Domini Nostrum...”

Depois:

...”A procissão transpôs as portas verdes.”

“Rapazes de sotaina roxa carregavam uma Cruz de prata, uma Caldeira e um Bissope feito de ramos de palmeira.”

“as gotas de água benta alastraram em manchas na tela.”

“- Abençoai, Senhor, este navio PISTOLA e todos ao que nele vão. Guardai-o como guardaste a Arca de Noé do dilúvio. Dai-lhes a vossa mão como destes ao Apóstolo Pedro quando ele caminhou sobre as águas do mar ...”

Depois:

Em Daomé, D. Francisco Félix de Sousa tornou-se Xá-Xá (governador dos estrangeiros) e Vice-Rei de Ajudá pelo juramento de sangue feito com o Rei, que ele próprio ajudou a subir ao trono por golpe de Estado. Mas o Rei tornou-se um guerreiro mais terrível do que todos os seus antepassados, talvez igualado (nas mesmas circunstancias) coma dinastia dos Reis do Huambo, em Angola. Tomou GRITO em 1818; LOZOGOBÉ em 1820 e LEMÓN em 1825. matou Atobé de Mahi, Adafé de Napou e Achadé de Léfou-Léfou. Obrigou os atakpameanos a comer os pais num guisado; jurou derrotar os egbas na sua fortaleza de Abeokuta e disse ao Alafin de Oyo, que comessem ovos de papagaio.”

Era incapaz, como acontecia com o Rei do Huambo de então e seguintes, de acabar com os ciclos de guerra e de vingança e incapaz de resistir à tentação de ter mais caveiras.

“As caveiras dos seus inimigos – segundo Bruce Chartwin – garantiam-lhe que estava vivo no mundo das coisas reais. Caveiras formavam os pés do seu trono, os lados da sua cama e o caminho que conduzia ao seu quarto de dormir. Sabia o nome de cada caveira existente na sua Casa das caveiras e tinha conversas imaginárias com cada uma à vez: os inimigos menores estavam empilhadas em tabuleiros de cobre, mas os grandes eram enfaixados em seda e guardados em cestos pintados de branco.”

...” D. Francisco pensava em maneiras de os salvar da faca ...”

Mas o Rei, de olho vivo, gritava-lhes:

...”A guerra é para ganhar cabeças, não para as vender presas aos corpos ...”

No entanto, os liberais brasileiros odiavam a Escravatura por sua vez (talvez a única forma de salvar e libertar milhões da morte certa ao ficarem prisioneiros de déspotas africanos) e por razões morais; e os conservadores brasileiros estavam também contra porque havia cada vez mais negros no Brasil.

 

AMIGOS  BRASILEIROS:

A “A.I.A.A.” regista este acontecimento da Constituição duma Associação a ser formalizada juridicamente com a designação de ASSOCIAÇÃO DOS AMIGOS (brasileiros) DE ANGOLA, feita por gente de bem, como um facto que dignifica e honra todos os BRASILEIROS de ontem, de hoje e de sempre !

 

Lisboa, 21 de Agosto de 2002

 

 

De V. Exa.

Atenciosamente

 

 

Carlos Caldeira de Victória-Pereira

- Presidente -

 

 

Manuel Maria Caldeira de Potes Cordovil

 

- Vice Presidente –

 

 

 

 

Um Retorno à África

(em 1835)

 

Um grupo feliz

de africanos brasileiros

como isso foi possível ?,

comprou a liberdade

e fretou dos ingleses

um dos seus cargueiros,

rumando a África,

indo em romagem de saudade.

 

Desembarcou quase em Lagos,

entre aguaceiros;

na esperança daí

alcançarem perdidos lares

num paraíso existente

entre terras e mares,

contado em histórias

de contos verdadeiros.

 

Mas pântanos fétidos,

e gentes felinas !,

acharam os homens

vestidos de cartola,

mulheres de renda branca

de crinolinas,

de cabelos alisados

com ferro quente,

indo, depois, cantando

melopeias de Angola

praia fora até ao Reino

de Ajudá, sempre em frente.

 

 

Tapada das Mercês, 04 de Setembro de 2002

Carlos Caldeira de Victória-Pereira

 

 

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