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À COMISSÃO INSTALADORA da

ASSOCIAÇÃO AMIGOS DO LUBANGO

 

Com especial atenção

ao Senhor Francisco Angelo Dias (BEBÉ) Nóbrega

 

AMIGOS

 

É COM GRANDE SATISFAÇÃO QUE A “A.I.A.A.” – Associação Internacional Amigos de Angola regista o interesse da vossa Comissão para a constituição da Associação Amigos do Lubango (Angola).

A propósito apraz-nos referenciar uma passagem do livro “DE ANGOLA À CONTRA COSTA” de Hermenegildo Capelo e Roberto Ivens, publicado em 30 de Setembro de 1886 pela Imprensa Nacional, em Lisboa, sobre a região da Huíla, que transcrevemos com a devida vénia:

...”Do arraial de Caionda prosseguiu a expedição portugueza atravez dos virentes plateaux que a defrontam a caminho directo da Huíla, onde chegou a 3 de maio.”

“A Villa (Huíla) apresenta um aspecto agradável, embora muito deixe a desejar, com as suas casas bem situadas, tendo no meio a ampla fortaleza, mas que carece de reparos.”

“À frente estão as plantações e aos seus pés o rio Lupollo, correndo d’éste a oeste n’um risonho e pittoresco valle, depois de derivar de uma cascata formosa de que damos o desenho.”

“Meia dúzia de morros, dispersos em vasto semi-círculo de éste pelo norte, animam o panorama com seus vultos gigantescos.”

“A importancia agricola da Huíla póde tornar-se grande, por enquanto não o é. Cada qual semeia para si trigo, centeio, milho, couves, batatas, e com isso se contenta. A distancia que a separa do litoral tem-lhe impedido o desenvolvimento, pois é impossível enviar para a costa qualquer artigo, estando sobrecarregado o carreto na razão de 20 libras esterlinas por cem arrobas ...”

De mais adiante transcrevemos:

...”O clima da Huíla não carece de encómios. A altitude, temperatura moderada, brisa fresca, regularidade de estações, tem-lhe valido justa reputação ...”

...”A terra fértil d’esse paiz produz quanto se lembrarem de lançar-lhe; desde o pecego e o trigo até à ginguba ou mendobi, vimos que tudo vingava com igual facilidade ...”

...”Deixemo-nos de mais considerações; capital é que se deseja, propaganda fazendomo-la nós aqui, recordando que n’uma terra que tão generosamente secunda os esforços dos (povoadores) nada pode resisitir a forças de vontade bem determinada; e sirva de exemplo esse punhado de colonos, que, tendo ido para ali em 1840, pela maior parte com os bolsos vazios, levantaram a esplendida villa de Mossamedes, e são hoje pelo geral proprietários ...”

...”A primeira cousa precisa é crear meios de transporte; de outra forma todo o sucesso será impossível ...”

 

Já nesse tempo havia, no Planalto Huilano, além da Huíla, as povoações da Quihita, Gambos, Humpata e S. Januário (Palanca), estas duas últimas fundadas pelos Boers, que muito contribuíram para o desenvolvimento da região.

Os Boers transportavam-se em pessoas e mercadorias, nos seus carros, denominados de carros boers, com que transitavam até Moçâmedes e para o interior também, para além do Cunene.

Pelo espírito e pela acção da Portaria nº 17 do Governo do Distrito de Moçâmedes, datada de 20 de Novembro de 1884, a Colónia de Sá da Bandeira foi instalada no Lubango a 19 de Janeiro de 1885.

Faz neste ano de 2002, 117 anos !

Esses povoadores eram precisamente 222 almas vindas da Madeira, de várias idades, para ali (Lubango) despachadas pela Portaria referida do Governo de Moçâmedes, aprovada pelo Decreto Ministerial do Governo de Pinheiro Chagas, em Lisboa.

D. José Augusto da Câmara Leme, Condutor de Obras Públicas, abrira caminho ou simples passagem do areal do Calahari à Chela, por falésias e reentrâncias da formosa cordilheira, sendo nomeado depois e de seguida Director da feitoria nascente do Lubango.

Do facto, transcrevemos do escritor João da Chela:

... “ Quando esta “colónia” avançou do mar desembarcada do transporte “INDIA”, já Câmara Leme havia escolhido local para alojamentos ali abaixo à beira do Caculovar, a cinco quilómetros da cidade florida, que é hoje o Lubango. Ergueu uns abrigos de paus que a selva exuberante lhe dera. Cobertura: o capim viçoso e alto de que a terra estava já farta ... A esses abrigos, cubatas nem mais, nem menos, deu-se o nome de “barracões” ficaram sendo para a história.”

E continua:

... “Quanta dor, quanta ansiedade e quanta glória ali gerou o primeiro sangue daquelas vidas!”

Depois ...

... “Cresceram hortas, jardins e flores. Alinhadas as ruas, subiram as primeiras casas e pequenas herdades brancas, do Santo António à Mapunda, tinham em seus beirais asas de andorinhas e pombas ao ouvir-se o galrar alegre dos primeiros filhos dos casais, (hoje se fossem vivos com mais de 117 anos).

Quantos desses povoadores viveram e morreram ?

... “Não façamos história – diz João da Chela – que a história magoa por enquanto.”

O GUALDINDO, o CALDEIRA, o RICARDO, o JOÃO GOMES, o CA-MUÍLA, o MANICA, o LARANJO, o MANUEL HENRIQUES, o DAVID, que fora exemplo físico de dureza que o trabalho não acabrunhou, e os Nóbregas de S. Januário e da Humpata, além doutros tantos, suas esposas e famílias, há muito que dormem no seio da terra que cultivaram !!!

Na verdade, com as populações nativas da Huíla, aos fundadores e fundadoras do Lubango (povoação) deve-se a beleza de tão graciosa, clara e formosa cidade, que nasceu e vive numa grande bacia entre as serras da Chela, aos pés da Nossa Senhora do Monte, abençoada pelo CRISTO REI.

São estes (africanos e europeus) de então que existem hoje como pessoas lendárias da bela e não menos lendária história da Huíla, como gente humilde e superior que viveu em paz em e por Angola.

AMIGOS  HUILANOS:

A “A.I.A.A.” regista este acontecimento resultante da Constituição de Associação AMIGOS DO LUBANGO, organização da responsabilidade de brancos, negros e mestiços, gente de bem !, na DIÁSPORA, como um facto que dignifica e honra todos os Huilanos de ontem, de hoje e de sempre !

 

Lisboa, 20 de Agosto de 2002

 

 

De V. Exa.

Atenciosamente

 

Carlos Caldeira de Victória-Pereira

- Presidente -

 

Manuel Maria Caldeira de Potes Cordovil

- Vice Presidente –

 

 

 

 

 

Uma Noite do Lubango

 

À sombra da nocheira

piava o noitibó.

Pela noite calada,

revivia meus sonhos

dispersos em fumaças

espessas de pó,

feitas de redemoinhos

de tufões medonhos.

 

Crepitavam as Estrelas

no sempre só

do Céu da Eternidade

e ouvia sinos de insectos

do silêncio pesado

e o pio do noitibó,

qual sentinela atenta

de sonhos despertos.

 

E a noite fria,

à sombra da nocheira frondosa,

era capa rota

arrastada de estudante

a perseguir um amor

e outro a cada instante.

 

No silêncio da noite,

lágrima teimosa

corria-me pela face

em tristeza e alegria,

e a noite,

já depois da noite,

assim morria ...

 

Tapada das Mercês, 20 de Agosto de 2002

Carlos Caldeira de Victória-Pereira

 

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