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Transcrição da Carta recebida

 

À

ASSOCIAÇÃO INTERNACIONAL AMIGOS DE ANGOLA

 

Lisboa

 

À

Atenção dos Povoadores de Angola, aqui em Portugal denominados, ambiguamente, uns por COLONIALISTAS e RETORNADOS e outros  por REFUGIADOS AFRICANOS.

 

IRMÃOS:

 

Diz-se que “dos fracos não reza a História” e também se diz que “não vale a pena chorar pelo e sobre o leite derramado”!

No curso da História de Angola desde sempre, embora houvesse de direito e de facto um Regime Colonialista em Angola, a seu tempo representado pelo Funcionalismo Público e Privado Superior Português, a verdade é que fora deste Regime houve também honrados e dignos POVOADORES, que se denominavam FILHOS DO PAÍS, por terem feito de Angola Terra SUA.

Os POVOADORES foram, brancos, negros e mestiços, cada um por si e todos em conjunto o suporte básico da Nação Independente e Soberana que é hoje a República de Angola.

Os POVOADORES são por conseguinte CIDADÃOS NACIONAIS ANGOLANOS legítimos, quer se encontrem em Angola ou fora de Angola, direito que contraria os tão badalados VENTOS DA HISTÓRIA.

Segundo o Escritor JOÃO DA CHELA (um dos Povoadores de Angola ali chegado em 1922), o “Jornal de Benguela” de 23 de Novembro de 1953, publicou em notícia transmitida de Lisboa pela Agência Lusitânia, o seguinte:

“...No Vapor Luanda, da C.C.N., seguiram para Luanda os restos mortais do velho colono (Povoador) ANTÓNIO MENDES DE FIGUEIREDO, natural de Oliveira do Hospital, comerciante, que recentemente faleceu em Lisboa. Sem dúvida em obediência à determinações que deixou, António Mendes de Figueiredo ficará sepultado em Angola, onde viveu os melhores anos da sua vida ...”

Este gesto de profundo significado, seguido por muitos outros Povoadores (branco, negros e mestiços) demonstra bem que a Terra Angolana é Pátria de Vivos e de Mortos, ou melhor, é a Pátria da Memória duns e doutros.

Diz ainda João da Chela:

“... Vivi a revolução do mundo dos últimos trinta anos (desde 1922) na Terra imensa, e apaixonante, que Diogo Cão descobriu. O mundo, por essas Nações civilizadas à doida, e endemoninhadas de ambição e de ódio, abriu nas suas lutas amargas e profundos rasgões, para os quais não se sabe quando haverá cura, ou se será possível havê-la. Esta parte do convulsionado Globo, intangível e tomada, também, de seus delírios, sonhou com a sua revolução, e fê-la: as cargas de dinamite, com que outros estoiraram a propriedade e os homens, começaram a esfacelar pedreiras, a estoirar esse granito que o mundo criou em milhares e milhares de séculos para a construção dos seus Povos. E os nossos “EXÉRCITOS” são apenas equipados com pás, picaretas, enxadas e martelos – as armas de uma revolução contínua, gloriosa e triunfante de trabalho e de ordem.”

No entanto, pelos badalados e mal soprados VENTOS DA HISTÓRIA, que varreram Angola e aniquilaram o seu Povo, parafraseando CHURCHIL:

“...Nunca tão poucos destruíram tantos e tanto, em tão pouco tempo ...”

 

IRMÃOS:

 

O momento é de enterrar os mortos e cuidar dos vivos, como disse o Marquês de Pombal aquando do terramoto de 1755, que destruiu grande parte de Lisboa.

Milhares de homens, mulheres e crianças angolanas estão entregues à sua sorte, completamente desorientados, à deriva, agora que se presume ter terminado a guerra civil, que assolou o País praticamente desde a sua Independência.

É preciso e urgente concorrer com enxadas, pás, picaretas, machados, martelos, serras, serrotes, carrinhos de mão; fertilizantes (Carbonatos e Fosfatos de Cálcio) como aditivos/correctivos para os solos precários; sementes (essencialmente de milho, feijão, batata doce e normal, cebola, etc. e também cobertores (cambriquiques) e assistências medicamentosa, agrícola/pecuária e o que mais for necessário, para fortalecer os “EXÉRCITOS” regionais combatentes contra a fome, a doença e a morte que todos e tudo destroem.

 

É preciso e urgente, como obrigação e dever, que cada um de nós contribua com DONATIVOS representados em espécie aludida atrás, de forma que cada angolano necessitado possa cavar na sua região o seu próprio sustento em paz e dignidade.

Esses DONATIVOS devem ser entregues à ASSOCIAÇÃO INTERNACIONAL AMIGOS DE ANGOLA (A.I.A.A.), de que o signatário participa na PRESIDÊNCIA conjuntamente com o Eng.º Agrónomo/Paisagista Manuel Maria Caldeira de Potes Cordovil.

 

OBRIGADO

 

Lisboa, 28 de Julho de 2002

 

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